terça-feira, 4 de julho de 2017

Urbanismo acústico: o barulho e a cidade



Maurício Andrés Ribeiro 


Mais da metade das reclamações que chegam aos órgãos ambientais municipais refere-se ao barulho, que causa transtornos psicológicos e mentais, perda de sono e tragédias. O ruído indesejado invade o ambiente e cria tensão psicológica, não facilmente resolvida, a não ser que cesse a fonte de barulho ou que haja isolamento acústico.
No Brasil, associa-se o barulho à alegria e vida, enquanto o silêncio é associado à tristeza ou morte. Isso cria clima cultural pouco predisposto à colaboração espontânea com a redução da poluição sonora nas cidades.
São múltiplas as fontes de ruído indesejável em áreas urbanas e cada uma delas exige ação específica para ser combatida. Templos religiosos, garagens de ônibus que funcionam às madrugadas, construção civil, tráfego de passagem, carros de som de atividades comerciais, sindicais ou culturais, festas e atividades de lazer agridem o silêncio urbano. Incômodos freqüentes são causados por animais – latidos de cães durante a noite –, festas em espaços abertos e em salões dentro de condomínios de apartamentos, bares e atividades noturnas com música ao vivo, atividades industriais em áreas residenciais, assim como freqüentadores de atividades noturnas que, com suas vozes, buzinas, barulho de tráfego, perturbam o sossego das vizinhanças.
Níveis de ruído inferior ao que a legislação ambiental considera transgressão também incomodam, como o do chamado efeito pernilongo, lembrando o inseto que produz um ruído baixinho que perturba o sossego.
O barulho afeta dramaticamente a qualidade de vida urbana e causa tensão psicológica às pessoas expostas a ele por períodos prolongados. A poluição sonora é motivo freqüente para conflitos de vizinhança, os quais às vezes são resolvidos de modo violento. Alguns casos chegam a ser trágicos, como o do reclamante que, exasperado pela demora na solução para o ruído excessivo causado por um bar vizinho, assassinou o dono do estabelecimento. Outros casos são dramáticos, como o da dona de casa vizinha a uma serralheria e que acordava durante a noite imaginando que a serra que corta pedras funcionava, pois já havia internalizado na mente o trauma com o barulho ensurdecedor e não distinguia entre alucinação e realidade, sofria de transtornos mentais causados pelo barulho. Em outro caso, um pastor de igreja queria anular uma denúncia por causar barulho nas vizinhanças, que lhe resultaria numa autuação e multa, com o argumento de que tudo não passava de armação de vizinhos sem valores ou princípios morais e que se tratava de perseguição religiosa.
O ruído proveniente de construção civil, especialmente de serras elétricas, betoneiras, bate-estacas, pode ser controlado limitando os horários de funcionamento dessas máquinas e ferramentas e com seu confinamento, o uso de abafadores e tecnologias de redução de barulho.
O ruído do tráfego pode ser reduzido com o uso de cortinas vegetais ou muros construídos ao longo das principais vias, ou pelo replanejamento de transporte, descongestionamento de vias de relevo acidentado e com a melhoria de padrões de veículos. Em cidades de topografia acidentada o tráfego de veículos em subidas fortes agrava a poluição sonora. O controle da emissão de ruídos pelos veículos pode melhorar a situação da cidade em termos dessa poluição.
O barulho deprecia o valor dos imóveis. A topografia acidentada cria, nos focos de relevos côncavos, caixas acústicas que disseminam o ruído. É comum encontrar apartamentos de cobertura que sofrem vibrações e recebem o ruído do tráfego circundante com mais intensidade do que os apartamentos de andares inferiores, mais próximos ao tráfego e que sofrem, por isso mesmo, desvalorização no mercado imobiliário.
A cultura urbana evoluída incorpora o silêncio como um de seus valores. O controle ambiental para suprimir ou evitar barulhos é, ao mesmo tempo, ação penalizadora e pedagógica. Viver numa cidade grande e adensada requer respeito ao bem-estar do vizinho, ao adotar rigor no licenciamento de construção e de localização dessas atividades. As reclamações de barulho noturno, especialmente relacionado com bares e música ao vivo e festas, precisam de fiscalização, da instalação de plantões de atendimento noturno e de ação educativa junto às fontes poluidoras.
A permissão para a localização de atividades industriais ou de serviços precisa ser seletiva, e o zoneamento da cidade é instrumento para isolar as atividades barulhentas para longe de áreas residenciais. Em cidades europeias com uma cultura urbana mais antiga e consolidada, elas são segregadas nas áreas industriais, onde não incomodam o sono dos habitantes. O licenciamento ambiental é instrumento eficaz para evitar o agravamento dos problemas ambientais de ruído, só se concedendo alvará de localização às atividades que instalarem isolamento acústico ou medidas de controle do som.
A educação ambiental em associações de bairros e escolas, e por meio da comunicação de massa, auxiliará a reduzir conflitos de vizinhança, para que sejam equacionados sem recorrer à fiscalização ou à polícia. O tratamento descentralizado do barulho demanda que se equipem as administrações com decibelímetros e fiscais treinados para atender as reclamações, por meio da área de controle urbano e de meio ambiente, e que se intensifique o controle diurno, vespertino e noturno. É preciso produzir material educativo, para a distribuição em escolas e entre os empresários potencialmente poluidores. Os fiscais precisam atuar como educadores, informando os reclamantes e os autuados sobre a importância do silêncio. Esse conjunto de iniciativas merece ser aprimorado e complementado por medidas no âmbito federal, no sentido de normatizar os veículos e equipamentos que produzem barulho e fazer com que seus fabricantes também sejam responsáveis pela redução dos níveis de ruído.
O silêncio é um valioso recurso e um patrimônio intangível e imaterial que necessita de cuidados para ser protegido. É fundamental que o cidadão urbano seja consciente da importância do silêncio para a saúde e do respeito a níveis de ruído que não causem danos à saúde física, emocional ou mental, que preservem a qualidade de vida e a convivência urbana com menos conflitos de vizinhança.




segunda-feira, 19 de junho de 2017

Respiração Como Cultura


Maurício Andrés Ribeiro

Respirar é um ato que todo animal ou vegetal realiza do início ao final de sua vida. Da primeira inspiração ao último suspiro, o corpo interage com a atmosfera. Mas respirar não é apenas um ato natural. A respiração consciente, os vários modos e formas de respirar, o aprender a respirar 
corretamente, transformam esse ato elementar num ato cultural.
Foi durante minha estadia na Índia, nos idos da década de 70, que tomei consciência da importância cultural da respiração. Os antigos iogues desenvolveram a prática de exercícios respiratórios como forma de concentração. Essa tradição desenvolveu técnicas de controle da respiração e modos de inspirar e expirar a energia que mantém a vida e que está presente em toda a natureza, conhecida como prana.
As práticas de ioga utilizam diversas posturas (ásanas) e exercícios respiratórios (pranayamas) para aprimorar o uso do corpo. Um bom controle sobre o corpo ajuda a controlar a mente e a obter maior  profundidade de percepção e conhecimento. Uma atitude básica da meditação é o focar a atenção na respiração, pois quando se observa o movimento do ar para dentro e para fora dos pulmões, deixa-se de pensar no passado ou no futuro e a atenção orienta-se para o momento presente. A consciência do ato de respirar, associada à vibração de um som como o OM (som universal) durante a expiração, acalma o pensamento e a mente. Trata-se de prática que pode ser exercitada cotidianamente nos tempos de deslocamento, nos transportes e salas de espera.
O espiritualismo da cultura indiana se ancora na matéria, vista como manifestação ou corporificação do espírito. Os fundamentos materiais dessa espiritualidade foram testados em milênios de história e deu-se muita atenção a atos elementares. Para a tradição indiana, o próprio universo é criado e extinto de acordo com o ritmo da respiração de Brahma, que, ao expirar ou inspirar, regula os ritmos universais.
Há varias formas de se respirar, cada qual com seus efeitos sobre o corpo, sobre a mente e as emoções. O exercício de ritmar a respiração voluntariamente induz ao equilíbrio físico-emocional e aumenta a capacidade de percepção sensorial e mental.
A boa respiração reduz estresse, hipertensão, depressão, relaxa, ajuda a emagrecer.
Leva a um maior equilíbrio, bem-estar, flexibilidade, saúde. O estado de tranquilidade e de boa irrigação sanguínea que produz pode ser considerado uma preparação para níveis de desenvolvimento espiritual mais elevados, em que há mais percepção, mais consciência, mais harmonia na  movimentação corporal e nos relacionamentos, mais segurança nas ações cotidianas, entre outras virtudes e habilidades. A maior ventilação proporcionada por uma respiração profunda pode alterar o estado corporal e de consciência. Nesse ponto, é oportuno realçar a importância da sobriedade e advertir contra abusos em exercícios respiratórios, e contra práticas como a retenção da respiração e outras manipulações perigosas para a saúde física e cerebral.
Cada atividade humana e estado de saúde se associa a uma forma de respiração. Um músico que toca um instrumento de sopro, como uma flauta, precisa ter fôlego e um controle preciso da respiração e do ar; atletas, nadadores, aqueles que desenvolvem trabalhos físicos, têm atividade respiratória e trocas de oxigênio e carbono mais intensas do que quem vive sedentariamente; a insuficiência respiratória de doentes exige aparelhos para ser compensada com a respiração artificial.
Durante a vida desaprendemos a respirar corretamente. Desenvolver a ciência e a arte de respirar faz parte de uma cultura respiratória fundamental e quase esquecida, pois toma-se esse ato apenas como um dado natural, sem refletir ou compreender sua real importância e suas variações.
Na sociedade contemporânea, além de aprender a ser, a conviver, a conhecer e a fazer, a educação corporal ou física inclui aprender a respirar, aprender a alimentar-se e a se movimentar. A educação do corpo é um fundamento básico para a educação do ser. Isso significa que a reeducação respiratória é tão importante quanto a educação dos sentidos, a tomada de consciência sobre a cultura alimentar e outras formas de educação essenciais para a vida individual e coletiva.
A civilização indiana foi a que mais se aprofundou nessas ciências e artes e que as comunicou de forma compreensível, construindo um patrimônio intangível que vem sendo revalorizado devido aos benefícios práticos que proporciona.
A pessoas de minha relação que se entediam quando não têm nada para fazer, costumo dizer:
“Respirem...”
Procuro assim valorizar esse ato vital, básico, fundamental para a vida. Mas admito que esse fato desperta admiração ou curiosidade, especialmente entre aqueles que ainda não tomaram consciência da respiração como um ato cultural.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O ciclo da água


Maurício Andrés Ribeiro



Figura: Ciclo da água. Fonte: USGS

 O ciclo da água na natureza compreende várias etapas. Aquecida pelo calor do sol, a água de superfície evapora de oceanos, mares, rios e lagos. Ao se condensar, ela se precipita na forma de chuva, neve ou granizo; escoa na terra, formando rios, lagos, mares e oceanos; uma parte se infiltra no solo e alimenta os lençóis freáticos e os aquíferos subterrâneos. Ela tem fluidez e capacidade de transformação e permeia as demais esferas da natureza, na Terra. A hidrosfera contém a água doce, salgada, de superfície ou subterrânea.
Ela está na litosfera, embebida como água subterrânea nos solos; em contato com o calor no interior quente da terra vem à superfície nos geigers e nas estâncias de águas quentes que trazem água aquecida da pirosfera.
A água está presente na atmosfera, na umidade do ar, nas nuvens, que levam para longe essa umidade, que se precipita na forma de gotas, granizo ou neve.
A água está presente na biosfera, que habita uma fina membrana na superfície do planeta. O ciclo da água passa pelos seres vivos. Está na seiva dos vegetais, nos humores dos corpos animais e humanos. Cerca de 70% do peso de um ser humano é composto de água. As plantas a sugam do solo e devolvem à atmosfera por evapotranspiração a água existente em sua seiva. A floresta amazônica é uma grande bomba que emite água para a atmosfera, conforme mostra o cientista  Antonio Donato Nobre ao tornar claro que a seca no sudeste e no centro-oeste brasileiro está relacionada com o desmatamento.
Fonte: Árvore, ser tecnológico. Creative commons


Fonte: Árvore, ser tecnológico. Creative commons

A quantidade de água existente nos oceanos, nos mares, nos rios, na atmosfera, nos seres vivos, no interior da terra foi quantificada por Igor Shiklomanov, bem como a sua composição em termos de águas doces, salobras e salgadas e em termos do estado físico em que se apresenta.
Se a quantidade total de água é praticamente constante (ela pode ser alterada quando do choque com nosso planeta de algum corpo celeste, um cometa etc, composto de gelo e água) a sua distribuição no estado líquido, sólido ou gasoso é variável em função de mudanças do clima.
 A água é uma substância da natureza muito sensível a variações de temperatura e por isso, é essencial na adaptação às mudanças climáticas. O ciclo da água sofre as influências do que ocorre com os ciclos biogeoquímicos tais como os do carbono, do nitrogênio, do fósforo, do enxofre.  Eventos críticos tais como secas e estiagens, enchentes e inundações, furacões, tempestades tropicais vêm se tornando mais frequentes e intensos à medida em que ocorrem mudanças no clima.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Portugal e a cultura da água



Maurício Andrés Ribeiro
A expansão da consciência sobre a água em Portugal é estimulada por meio de museus, parques biológicos, oceanário e uma diversidade de equipamentos culturais e científicos de uso intenso.
Na Expo 98, Lisboa construiu um Oceanário que mostra que todos os oceanos são um só oceano. Junto a ele há uma cascata-escultura de água.  Há grandes aquários, locais de aprendizagem sobre as águas, onde crianças jovens e adultos se encantam com as belezas do mar. Exposições temporárias como aquela sobre Florestas submersas do planejador de paisagens hídricas (waterscaper) japonês Takashi Amano reforçam o ambiente de encantamento. Há programas de educação ambiental com sugestões de evitar o consumo de certas espécies de peixes para evitar sua extinção.

Escultura-cascata de água junto ao Oceanário
Parque biológico de Gaia
 Em Gaia o Parque Biológico completa 30 anos de existência. Criado e dirigido muito tempo por Nuno Gomes Oliveira (autor do livro sobre José Bonifácio de Andrada e Silva, primeiro ecologista de Portugal e do Brasil) ele é cortado pelo rio Febros, afluente do Douro.  Intensamente visitado por estudantes e outros públicos, nele se mostra como a agua no seu ambiente natural oferece habitat para diversas espécies. Um biorama mostra a evolução da vida, a história natural, dinossauros, em ambientes atrativos para a atenção de crianças, adolescentes e adultos. O parque integra tanto ambientes para a fauna e flora, como também valoriza o homem e suas atividades. Mostra as atividades humanas agrícolas que existiam na região: o espaço rural, os campos cultivados, os açudes, o uso da água na agricultura e como fonte de energia para mover moinhos e pilões para produzir o vinho.




Ambiente convidativo para fauna silvestre

Energia animal na atividade agrícola tradicional

Moinho tradicional movido a água.

Visitantes observam  a fauna discretamente.
Estudantes observam o canal de drenagem de água
Museu da água em Lisboa
Lisboa tem um Museu da Água do qual fazem parte aquedutos, estações elevatórias de águas, reservatórios, aquedutos subterrâneos.  O museu é mantido pela EPAL- Empresa Portuguesa de Águas Livres.
Numa sala na unidade central do museu sintetiza-se informações essenciais sobre a água no cosmos, no planeta, em Portugal.



 Além disso ele é um museu do saneamento da cidade. Apresenta maquetes como o sistema de abastecimento histórico e as maquinas que bombeavam agua para ser servida na cidade. Mostra os sistemas de abastecimento, as obras hídricas, aquedutos, reservatórios, chafarizes e estações de tratamento de agua e de esgoto.

Estação elevatória de água visitada por estudantes.


História do abastecimento de água  de Lisboa
Esses três exemplos evidenciam como museus, centros de cultura e parques são equipamentos centrais na educação dos cidadãos para se tornarem hidroconscientes e responsáveis.  O envolvimento sensorial, a experiência de estar em ambiente que estimula a percepção, o contato direto com a natureza, com a tecnologia facilitam a aprendizagem e a formação. O uso intenso desses equipamentos e sua procura atestam a demanda que existe por lugares e ambientes que educam de modo leve, lúdico, agradável.